Como os ecrãs mudam o nosso cérebro? Parte 2

Como os ecrãs mudam o nosso cérebro? Parte 2

Se na primeira parte deste artigo explorámos o impacto dos ecrãs no cérebro adulto, nesta segunda parte focamo-nos nas crianças e adolescentes, onde os riscos são maiores, mas também no lado positivo da tecnologia e em estratégias concretas para usar os ecrãs de forma mais intencional.

Se o cérebro adulto é vulnerável ao uso excessivo de ecrãs, o cérebro em desenvolvimento é ainda mais. As crianças e os adolescentes passam cada vez mais horas em frente a ecrãs e a ciência começa a traçar, com clareza crescente, o que isso significa para o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental.

Impacto dos ecrãs nas crianças e adolescentes

O cérebro não está totalmente desenvolvido até ao início da idade adulta. Durante a infância e a adolescência, está a construir as ligações que vão suportar a atenção, a memória, a regulação emocional e o raciocínio complexo. É precisamente neste período crítico que os ecrãs têm maior capacidade de interferir.

Num estudo com mais de 9.500 crianças entre os 9 e os 10 anos, seguidas durante dois anos, os investigadores concluíram que mais tempo de ecrã estava associado a mais problemas de saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, dificuldades de foco e comportamentos impulsivos. A maior correlação com sintomas depressivos foi encontrada no tempo passado a enviar mensagens, ver vídeos e jogar videojogos (Nagata et al, 2024).

O mecanismo explicativo: os ecrãs geram libertações frequentes de dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. Com o tempo, o cérebro adapta-se a este nível elevado de estimulação, tornando as atividades do quotidiano menos recompensadoras por comparação.

Um estudo publicado na Advanced Science em 2024, com mais de 11.000 crianças, confirmou que o uso excessivo de televisão e videojogos está causalmente associado a declínios em vocabulário, raciocínio e comportamento. O mesmo estudo revelou ainda que ecrãs e leitura funcionam como vasos comunicantes: menos leitura empobrece o desenvolvimento cognitivo, e um cérebro menos desenvolvido lê ainda menos.

A revisão de Muppalla et al. (2023) reforça este quadro, documentando que o excesso de tempo de ecrã está associado a pior funcionamento executivo, menor desempenho académico e dificuldades no desenvolvimento da linguagem, sobretudo quando o uso começa em idades muito precoces e é predominantemente passivo. Mas o contexto importa: a presença de um adulto que medeia e conversa sobre o conteúdo já reduz significativamente esse impacto.

O lado positivo: quando os ecrãs ajudam o cérebro

Seria desonesto ignorar os benefícios. A investigação é clara: o uso ativo e intencional de ecrãs pode ser cognitivamente estimulante. Aprender um novo instrumento através de tutoriais em vídeo, jogar jogos de estratégia, manter contacto social com pessoas distantes, aceder a informação que de outra forma seria inacessível… tudo isto representa ganhos reais.

Em adultos mais velhos, a revisão de Shaleha & Roque (2025) mostrou que o uso ativo de ecrãs estava consistentemente associado a melhores resultados em memória e função executiva.Para esta faixa etária, o isolamento social é um fator de risco para demência, e a tecnologia pode funcionar como ponte de ligação social com impacto neuroprotetor.

Nas crianças, o estudo Chen et al. (2024) mostrou que ecrãs que incentivam a leitura ativa e o raciocínio estruturado produzem resultados cognitivos muito diferentes do consumo passivo de vídeo. A tecnologia não é boa nem má por si mesma. É o modo de uso que define o seu impacto no cérebro.

A questão não é banir os ecrãs, é usá-los com mais intenção.

6 hábitos com base na ciência

  1. Aplique a regra 20-20-20: a cada 20 minutos de ecrã, olhe para um ponto a 6 metros de distância durante 20 segundos. Reduz a fadiga ocular e interrompe o estado de hiperfoco passivo.
  2. Ecrãs fora do quarto pelo menos 60 minutos antes de dormir. A luz azul suprime a melatonina e atrasa o início do sono, com consequências cognitivas no dia seguinte.
  3. Distinga uso ativo de uso passivo. Aprenda algo, crie algo, comunique com propósito. Limite o scroll e a visualização passiva, que é onde o risco cognitivo é maior.
  4. Estabeleça momentos sem ecrã durante o dia, especialmente nas refeições e na primeira hora da manhã. Muppalla et al. (2023) identificam estas pausas como das estratégias mais eficazes para proteger o funcionamento executivo.
  5. Para crianças, privilegie o uso com leitura. O estudo Chen et al. (2024) mostrou que o tempo de leitura e o desenvolvimento cognitivo se reforçam mutuamente. Ecrãs que incentivam a leitura ativa são diferentes do consumo passivo de vídeo.
  6. Para crianças: co-visualização com conversa. Ver conteúdo junto e dialogar sobre ele transforma uma experiência passiva numa ativa, com benefícios para o desenvolvimento linguístico e emocional.

Conclusão: o ecrã não é o inimigo, o hábito inconsciente é

A ciência não pede que abandonemos os ecrãs. Pede que sejamos mais conscientes na forma como os usamos. O cérebro adapta-se ao que fazemos repetidamente, e isso é simultaneamente a boa e a má notícia. Significa que os danos de anos de uso passivo e fragmentado podem ser reais, mas significa também que mudanças de hábito têm efeitos mensuráveis.

A investigação de Muppalla et al. (2023) documenta que estratégias de gestão do tempo de ecrã como limitar a exposição, privilegiar o uso ativo e estabelecer rotinas sem ecrãs antes de dormir estão associadas a melhorias no funcionamento executivo e na qualidade do sono. Pequenas mudanças de hábito têm efeitos reais. Não são precisas décadas para sentir a diferença.

O que a neurociência nos diz, no fundo, é que o modo como olhamos para os ecrãs molda o modo como o cérebro olha para tudo o resto. Vale a pena ser intencional.

Lília Andrade

Psicóloga Clínica e Fundadora da Mente Positiva

Foto de Airam Dato-on no Pexels

Referências Bibliográficas

  1. Nagata J.M. et al. (2024). Screen time and mental health: a prospective analysis of the ABCD Study. BMC Public Healthpmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11457456
  2. Chen et al. (2024). Causal Relationships Between Screen Use, Reading, and Brain Development in Early Adolescents. Advanced Sciencepmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10953555
  3. Muppalla S.K. et al. (2023). Effects of Excessive Screen Time on Child Development: An Updated Review. Cureuspmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10353947
  4. Shaleha R. & Roque N. (2025). From screens to cognition: A scoping review of the impact of screen time on cognitive function in midlife and older adults. Digital Health / SAGEpmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12254657
  5. Shalash R. et al. (2024). Night Screen Time is Associated with Cognitive Function in Healthy Young Adults. Journal of Multidisciplinary Healthcarepmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11086650