O CRÍTICO INTERNO – O QUE FAZER COM ESTA VOZ QUE ESTÁ TÃO PRESENTE EM CADA UM DE NÓS?

O CRÍTICO INTERNO – O QUE FAZER COM ESTA VOZ QUE ESTÁ TÃO PRESENTE EM CADA UM DE NÓS?

“Vais falhar.”

“Não és suficientemente bom.”

“Os outros conseguem melhor do que tu.”

Se estas frases lhe são familiares, provavelmente já conhece o seu crítico interno. Esta voz acompanha a maioria das pessoas no dia a dia e tende a surgir precisamente nos momentos em que mais precisamos de confiança: antes de uma reunião ou avaliação importante, quando enfrentamos um novo desafio ou depois de cometer um erro.

Mais do que um conjunto de pensamentos negativos, o crítico interno pode influenciar profundamente a forma como nos vemos, nos relacionamos e tomamos decisões.

COMO SE MANIFESTA O CRÍTICO INTERNO?

O crítico interno conhece bem as nossas inseguranças e vulnerabilidades. Costuma surgir quando existe a possibilidade de as nossas fragilidades ficarem expostas e tenta antecipar cenários de erro, levando-nos frequentemente para um lugar de sofrimento.

Pode aparecer no trabalho:

“Devias dominar este assunto, vais dizer uma asneira e todos vão perceber que não és competente.”

No contexto escolar:

“Não fales. Vais enganar-te e todos vão rir-se de ti.”

Nas relações pessoais:

“Aquela pessoa não te respondeu porque achou a tua mensagem ridícula. Estás a ser demasiado cansativo.”

E até no contexto pessoal:

“Olha para o espelho, devias estar em melhor forma. Os outros conseguem conciliar tudo e tu falhas no básico.”

É uma voz rápida, cheia de certezas e raramente curiosa, compreensiva, gentil ou compassiva. Não procura perceber o contexto nem reconhecer os nossos esforços. Limita-se a apontar falhas e a antecipar o pior.

E, embora nos faça sofrer, diminua a nossa capacidade de nos valorizarmos e muitas vezes prejudique o nosso desempenho em vez de o potenciar, continua connosco.

Porque insistimos em falar connosco de uma forma que nunca usaríamos com alguém de quem gostamos?

O VILÃO INESPERADO: PORQUE É QUE ESTA VOZ É TÃO DURA CONNOSCO?

À primeira vista, o crítico interno parece um inimigo. Faz-nos duvidar das nossas capacidades, enfraquece a autoestima e aumenta o sofrimento emocional. Mas poderá esta voz ser bem-intencionada em vez de uma vilã?

Vivemos rodeados de exigências e de expectativas externas. Procuramos ser vistos, reconhecidos, valorizados e amados. Queremos ser seguros, decididos, eficazes. Desde cedo, somos treinados para evitar o erro – os resultados e o desempenho são extremamente valorizados.

Ao longo da vida, vamos aprendendo que errar está associado a experiências de sofrimento, rejeição, humilhação, comparação, culpa ou vergonha. Aos poucos, o nosso sistema psicológico desenvolve estratégias para tentar evitar que essas experiências se repitam.

É neste contexto que o crítico interno ganha força.

Por mais duro que pareça, o crítico interno raramente está a tentar destruir-nos. Embora a sua estratégia seja imperfeita e muitas vezes excessiva, parte da ideia de que a crítica conseguirá impedir o fracasso e, consequentemente, evitar sofrimento profundo. Para isso, antecipa riscos, amplifica fragilidades e convence-nos de que é mais seguro não arriscar.

A sua lógica pode resumir-se a pensamentos como:

“Se eu me criticar primeiro, talvez os outros não o façam.”

“Se exigir mais de mim, talvez não falhe.”

“Se estiver sempre atento aos meus erros, consigo evitar sofrer.”

Muitas vezes, o crítico interno vive em estado de alerta permanente, como um protetor que nunca se permite descansar por acreditar que, se baixar a guarda, algo de mau acontecerá.

QUANDO O CRÍTICO INTERNO DEIXA DE AJUDAR

Reconhecer um erro é saudável. Construir toda a nossa identidade em torno dele é outra história.

Quando o diálogo interno é dominado pela crítica, começamos a olhar para nós próprios através de uma lente muito estreita. Os sucessos parecem nunca ser suficientes, enquanto os erros se tornam provas de que não somos capazes ou de que não temos valor. As falhas deixam de ser acontecimentos e passam a definir-nos. Deixamos de pensar “cometi um erro” para passar a pensar “há algo de errado comigo”.

Esta mudança subtil tem um impacto profundo na confiança, na motivação e na forma como enfrentamos novos desafios.

SILENCIAR OU ESCUTAR?

A reação mais comum perante o crítico interno é tentar silenciá-lo. No entanto, quanto mais lutamos contra determinadas partes de nós, mais elas tendem a fazer-se ouvir.

Uma alternativa que pode ser mais útil passa por desenvolver uma relação diferente com esta voz, escutando-a. Não para validar ou concordar com as mensagens críticas, mas para perceber o que as alimenta e conseguir ajudar o crítico interno a abandonar o julgamento excessivo e a tornar-se uma voz mais equilibrada e orientadora.

Quando deixamos de o ver apenas como um inimigo e percebemos que procura proteger-nos, torna-se possível substituir o julgamento por compreensão e a exigência excessiva por orientação.

COMO TRANSFORMAR O CRÍTICO INTERNO NUM ALIADO ATRAVÉS DA RELAÇÃO?

Talvez o objetivo não seja fazer desaparecer o crítico interno, mas ajudá-lo a perceber que não precisa de trabalhar tão arduamente para nos proteger.

Algumas estratégias podem fazer diferença:

-> Observe a voz crítica em vez de se confundir com ela. Em vez de lutar contra ou ignorar a voz, experimente notar: “Estou a reparar que surgiu um pensamento a dizer que vou falhar.”

-> Procure a intenção por trás da crítica. Pergunte diretamente: “O que está esta crítica a tentar evitar? O que tem medo que aconteça se eu não for exigente comigo? De que me está a tentar proteger?”

-> Reconheça essa boa intenção sem validar a mensagem. Pode apreciar internamente a tentativa de proteção: “Vejo que estás a tentar que eu não me sinta inferior nem passe por sentimentos de vergonha, culpa, humilhação ou rejeição.”

-> Questione o risco atual. Ajude o crítico interno a perceber se esse perigo antecipado ainda é real: “Sou agora capaz de lidar com um eventual erro sem que ele me leve a esse lugar de sofrimento intenso? Qual é o risco real?”

PEDIR AJUDA TAMBÉM PODE FAZER PARTE DO CAMINHO

Por vezes, o crítico interno torna-se tão intenso e persistente que afeta significativamente a nossa qualidade de vida.

Aprender a gerir o crítico interno não significa deixar de errar mas aprender a acolher os riscos como uma possibilidade que faz parte da experiência humana e como uma oportunidade de crescimento.

A consulta de Psicologia oferece um espaço seguro para olhar para o crítico interno com curiosidade, compreender os medos que o alimentam e perceber de que forma influencia a maneira como nos vemos, nos relacionamos com os outros e tomamos decisões. É possível construir uma relação interna mais saudável, em que a voz crítica deixe de comandar as suas escolhas e passe apenas a ser uma das muitas vozes que fazem parte da sua experiência.

Se reconhece estes sinais em si ou em alguém próximo, procurar apoio psicológico pode ser um primeiro passo importante para desenvolver uma relação mais segura e compassiva consigo próprio.

Inês Oliveira

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Foto de Thirdman