Aprender a encaixar: Reconstruir o amor na terapia de casal

Aprender a encaixar: Reconstruir o amor na terapia de casal

Fossem os casais puzzles e seriam puzzles permanentemente mutáveis.  

Algumas das mutações são normativas. Para os casais que têm como projecto familiar ter filhos, algumas crises são paragens obrigatórias num mapa que vem traçado: a reorganização das relações sociais e com as famílias de origem, o nascimento dos filhos e adaptação ao papel de mãe e pai, a gestão doméstica, os limites na intervenção de outros membros da família nas práticas parentais, o desenvolvimento da autonomia dos filhos adolescentes, a conjugação do suporte aos mais novos com o suporte aos ascendentes da família e eventualmente o “ninho vazio”. 

Conhecendo-se puzzle estes casais vão unindo as suas peças, conhecem a natureza volátil do retrato familiar, aceitam a metamorfose. É um bonito roteiro organizado para o qual a sociedade já vai criando soluções: existe intervenção psicológica específica que acompanha as dificuldades ao nível da fertilidade, vão surgindo cursos de preparação para a parentalidade, existe uma adaptação orgânica da rede de suporte para prestar cuidados instrumentais à nova pessoa que nasce (afinal, todos sabemos que é precisa uma aldeia), temos visto alguma evolução do ponto de vista dos papéis sociais e de género que vai progressivamente equilibrando a balança da gestão doméstica, e até têm surgido intervenções ao nível do treino parental e da parentalidade positiva que acompanham o desenvolvimento infantil com ferramentas para adultos. 

Só que enquanto se cuida de ser mãe, pai, família, nem sempre se cuida de ser casal, namorar, acompanhar o desenvolvimento pessoal individual do outro que amamos, observar como o outro cresce como se fosse cinema de autor. Fechamos os olhos para cuidar de ascendentes e descendentes em piloto automático, e acabamos por abri-los em crise: nas dificuldades pelas transições do ciclo de vida que são vividas em isolamento, na monotonia da relação, na insatisfação sexual arrastada, nas nossas expectativas frustradas de romance, numa relação extra-conjugal ou numa perturbação física ou mental séria que necessitará de cuidados profissionais. 

Além desta, que será talvez a maior lacuna em termos de suporte disponível para os casais, outras crises também se vão configurando. As pessoas podem estar em fases diferentes do seu processo de afirmação de género e orientação sexual quando se unem enquanto casal. Podem viver vidas sociais invalidantes do seu papel no casal, independentemente de como lá chegaram. Podem viver relações à distância sem necessidades emocionais e rotinas de comunicação asseguradas. Podem viver com um intervalo etário que dificulta a harmonização da nossa experiência de vida com o respeito pela experiência do outro. Podem estar a reconstruir puzzles com peças que já configuraram outras imagens e são agora difíceis de encaixar.

No fundo, todos os puzzles têm potencial para ter dificuldade de encaixe, quer seja inicial ou decorrente do desgaste das peças ao longo do tempo. A terapia de casal pode ser um processo importante de montar o puzzle a seis ou mais mãos. Às vezes o processo começa às cegas porque a caixa do puzzle já foi perdida há muito tempo. É necessário olhar todas as peças, perceber que imagem podem configurar, ir adivinhando e montando pela borda. Trabalha-se o compromisso com o objetivo comum, a imagem final, as regras que servem de estrutura e segurança ao casal, e a comunicação necessária para as implementar. Dá-se espaço para organizar as peças por cor, as emoções que emergem na relação ou em cada uma das partes. Vamos rodando as peças e tentando encaixar. Identifica-se o que está a mais, o que está em falta, e vai-se montando.

Todos os casais são como puzzles, viver a relação de uma forma saudável pode ser como ir montando. Às vezes para montar um muito bom puzzle é preciso desmontar um puzzle que já viveu melhores dias, que já foi mais satisfatório, ou que simplesmente deixou de fazer sentido. Na pressa de encaixar peças que não são as certas para as partes ou o todo, temos muitas vezes de voltar atrás. Mas a terapia de casal pode alicerçar o processo, ser a mesa estável em cima da qual montamos, criar condições de segurança e orientação para que a desmontagem seja menos arriscada. Para que se possa celebrar um puzzle completo, encaixado, uno, e resiliente perante os desafios vindouros.

Mariana Linharelhos

Psicóloga Clínica, Sexóloga e Terapeuta de Casal

Imagem de Frauke Riether por Pixabay