Como os ecrãs mudam o nosso cérebro? – Parte 1

Como os ecrãs mudam o nosso cérebro? – Parte 1

Passamos mais de sete horas por dia em frente a ecrãs. A investigação científica mais recente revela que este hábito está a remodelar a nossa memória, atenção e até a estrutura física do cérebro. Mas nem tudo é mau.

Há algo de estranho a acontecer com a nossa capacidade de atenção. Começamos a ler um artigo e, antes de chegar ao terceiro parágrafo, já estamos noutro separador. Tentamos ver um filme e a mão estende-se para o telemóvel quase sem darmos conta. Esta sensação, que tantos reconhecemos, pode ser o reflexo de mudanças concretas no funcionamento do nosso cérebro, moldadas por anos de uso intensivo de ecrãs. A ciência começou a perceber o que exatamente se passa.

O cérebro que se adapta, para o bem e para o mal

O cérebro humano é notavelmente plástico. A neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se reorganizar em resposta à experiência, é uma das suas maiores forças. Esta mesma característica significa que aquilo a que nos habituamos nos transforma. E a realidade é que passamos a estar muito tempo habituados a ecrãs.

Um dos fenómenos mais documentados é o da atenção fragmentada. A revisão de Shaleha & Roque (2025) documenta que o uso intensivo e passivo de ecrãs está associado a défices de atenção sustentada. O cérebro habitua-se a alternar entre estímulos rápidos e perde progressivamente a capacidade de se manter focado numa única tarefa por períodos prolongados. O problema não é apenas a quantidade de horas: é a qualidade do que fazemos durante esse tempo.

A distinção entre uso ativo e passivo é, aliás, uma das descobertas mais importantes da investigação recente. Jogar xadrez online, aprender a programar ou resolver problemas interativos ativa circuitos cognitivos de forma semelhante à leitura. Fazer scroll no feed, ver vídeos passivamente ou trocar mensagens durante horas é uma história diferente.

O que os ecrãs fazem ao cérebro dos adultos

Durante muito tempo, a preocupação científica concentrou-se nas crianças e adolescentes. Hoje, a investigação mostra que o cérebro adulto também é vulnerável e os dados são suficientemente robustos para merecer atenção.

Num estudo com mais de 400.000 participantes acompanhados durante 12,6 anos, os investigadores utilizaram ressonâncias magnéticas para observar a estrutura cerebral. Quem via televisão cinco ou mais horas por dia apresentava risco aumentado de AVC, demência e doença de Parkinson, além de menor volume de matéria cinzenta (a região onde acontece o processamento de informação, memória e cognição). Apesar destes dados, importa realçar que o uso ativo do computador estava associado a menor risco de demência, mesmo com horas equivalentes. Demonstra, assim, que há diferenças entre o uso ativo e passivo dos ecrãs.

Outro dado preocupante vem da investigação em adultos jovens: o uso excessivo de ecrãs está associado a alterações estruturais no cérebro relacionadas com o controlo cognitivo e a regulação emocional (Muppalla et al, 2023). O cérebro jovem adulto, que ainda está a consolidar ligações neurais importantes, não é imune aos efeitos do uso prolongado e passivo de dispositivos digitais.

Memória, atenção e a armadilha do scroll

A memória de trabalho (a capacidade de manter e manipular informação em tempo real) é uma das funções cognitivas mais sensíveis ao uso intensivo de ecrãs. A revisão de Shaleha & Roque (2025) concluiu que o uso passivo de ecrãs (ver televisão, scroll…) está ligado ao declínio da memória verbal e da cognição global, enquanto o uso ativo (resolução de problemas, estudo/aprendizagem, comunicação com propósito) está associado a melhores resultados nessas mesmas dimensões. O tipo de atividade que fazemos no ecrã determina se estamos a treinar ou a empobrecer a mente.

O impacto dos ecrãs no sono

O impacto dos ecrãs no sono é um dos mecanismos mais bem documentados e com consequências em cascata. A luz azul emitida pelos dispositivos digitais suprime a produção de melatonina, a hormona que sinaliza ao cérebro que é hora de dormir. O resultado é um atraso no início do sono e uma redução da sua qualidade.

Um estudo publicado em 2024 com adultos jovens saudáveis entre os 18 e os 35 anos encontrou uma correlação direta entre o uso do telemóvel à noite e desempenho cognitivo mais baixo no dia seguinte, nomeadamente em velocidade de processamento de informação, memória de trabalho, cálculo e atenção.

Assim, percebe-se que a privação crónica de sono, mesmo que moderada, compromete a consolidação de memórias, a regulação emocional e a capacidade de raciocínio. Ou seja, os ecrãs noturnos não apenas perturbam o sono, perturbam o desempenho cognitivo do dia seguinte.

Na segunda parte deste artigo falarei sobre o impacto dos ecrãs nas crianças e adolescentes. E trarei boas notícias: os ecrãs também podem ajudar o cérebro. Vai poder perceber de que forma. Por fim, partilharei seis estratégias concretas com base na ciência para usar os ecrãs de forma mais intencional.

Lília Andrade

Psicóloga Clínica e Fundadora da Mente Positiva

Foto de SHVETS production no Pexels

Referências Bibliográficas

  1. Shaleha R. & Roque N. (2025). From screens to cognition: A scoping review of the impact of screen time on cognitive function in midlife and older adults. Digital Health / SAGEpmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12254657
  2. Xu C. et al. (2024). Associations between Recreational Screen Time and Brain Health in Middle-Aged and Older Adults. Citado em: ie.edu — Hooked on Screens
  3. Muppalla S.K. et al. (2023). Effects of Excessive Screen Time on Child Development: An Updated Review. Cureuspmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10353947
  4. Shalash R. et al. (2024). Night Screen Time is Associated with Cognitive Function in Healthy Young Adults. Journal of Multidisciplinary Healthcarepmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11086650