Rosenberg desenvolveu um método para facilitar conversas, que é constituído por 4 componentes. Se comunicarmos tendo em conta o que aconteceu, de forma factual (1. Observação), como isso nos afeta (2. Sentimento), transmitindo aquilo que precisamos (3. Necessidade) com um pedido específico no final (4. Pedido), aumentamos a probabilidade de sermos escutados a partir da nossa intenção mais profunda. E se procurarmos por entre as palavras difíceis do nosso par, entender o que aconteceu, os seus sentimentos, o que precisa e possíveis pedidos escondidos na sua expressão, também iremos provavelmente diminuir a probabilidade de respondermos de forma reativa e automática.
Os 4 componentes da Comunicação Não Violenta, ou Comunicação Consciente e Afetiva:
- OBSERVAÇÃO
- SENTIMENTO
- NECESSIDADE
- PEDIDO
Agora, iremos ver cada componente em detalhe e como pode incorporar este tipo de comunicação na sua vida de casal, através de um exemplo:
1. OBSERVAÇÃO: Observar os atos concretos que estão a afetar o meu bem-estar, sem avaliar ou julgar
Este primeiro passo implica que tente comunicar o que está a acontecer sem interpretar ou julgar.
Imagine que marcou um encontro com o seu par e que este chega atrasado, a observação factual é apenas isto: o seu par chegou atrasado. A sua interpretação, pode ser de que ele não tem interesse no encontro ou que outra coisa foi mais importante naquele momento, por exemplo. Em vez disso, cinja-se aos factos e comunique: “estás atrasado/a ao nosso encontro”. Isto é uma comunicação factual sem avaliações (ao invés de uma comunicação ajuizadora, como por exemplo: “chegas sempre atrasado, é sempre a mesma coisa”.)
Comunicar sem julgamentos previne respostas defensivas e abre a possibilidade para uma conversa que se quer compreensiva e empática. Partilhar apenas o que observa é o início de uma comunicação consciente e afetiva.
2. SENTIMENTO: Identificar aquilo que sinto relativamente à situação observada e expressá-lo
É importante que comunique os seus sentimentos. Neste momento, tem que ter auto-consciência suficiente para conseguir percebê-los e identificá-los. O objetivo é comunicá-los de uma forma não ajuizadora.
No caso em particular, poderá dizer algo do género: “sinto-me incomodado/a”.
Comunicar os seus sentimentos envolve responsabilizar-se por eles. É uma mudança de perspetiva: considerar o que o outro diz e faz como um estímulo para o que sente, mas nunca como a sua causa única.
3. NECESSIDADE: identificar a necessidade subjacente a esse sentimento e expressá-la
É importante que compreenda e expresse as necessidades que estão por trás das suas emoções. Fazendo isso, dá uma oportunidade ao seu par de responder a essa necessidade. Neste caso, pode dizer, por exemplo: “eu preciso de sentir que eu sou importante para ti”.
As necessidades são universais e comuns a todos os seres humanos. A título de exemplo, emoções como a raiva e a frustração podem ser vistas como indicadoras de certas necessidades não preenchidas, tais como amor e aceitação.
4. PEDIDO: Efetuar um pedido concreto para melhorar o meu bem-estar e consequentemente o bem-estar do casal
O quarto passo pressupõe efetuar um pedido claro. O que é que o seu par tem de fazer para sentir que a sua necessidade foi tida em conta?
Pode, por exemplo, dizer: “´peço-te por favor que chegues a horas da próxima vez, é muito importante para mim”.
Um pedido não é uma exigência na medida em que é feito pela positiva e não é crítico nem gerador de culpa (expressões comummente utilizadas nas exigências: “tu deverias”, “eu mereço”, etc.).
Outro aspeto deste tipo de comunicação é a reciprocidade, ou seja, a forma como o outro recebe e devolve o que ouviu. A conexão entre o casal acontece quando esta devolução é feita nos mesmos moldes (seguindo os mesmos componentes) e recebida igualmente de forma empática. Assim, poderemos ser capazes de estabelecer um fluxo de comunicação entre ambos os lados até a compaixão se manifestar naturalmente: o que eu estou a observar e a sentir, aquilo que eu preciso e que estou a pedir para enriquecer a minha vida E o que tu estás a ver e a sentir em mim, aquilo de que precisas, aquilo que estás a pedir e que pode enriquecer a tua vida… a nossa vida.
Concluindo…
Este é um modelo de comunicação que pretende cuidar do próprio e do outro. Que pretende enriquecer as relações humanas a longo prazo, criando espaço para mais conexão, profundidade e afeto na relação de intimidade. E que inclui um elemento invisível na comunicação: a intencionalidade.
O que é que eu quero para a minha relação?…
O que é que nós queremos para a nossa relação?…
O que fazemos vai ao encontro disso?
Implica aceitar o nosso par como é e pedir-lhe, de uma forma consciente e afetiva, o que precisamos para ser felizes. Não é uma fórmula pronta e deve ser adaptada ao contexto de cada um. Mais do que um conjunto de técnicas implica uma postura empática, uma consciência das nossas necessidades mais profundas e uma intenção compassiva, ou seja, implica uma mudança de lentes que usamos para olhar para a vida.
“O amor é um sentimento, mas uma relação amorosa saudável é um conjunto de competências. A maioria de nós não aprendeu essas competências enquanto crescia, então esperamos que o amor nos conduza, que ele seja suficiente. Mas não é suficiente. Dito isto, o amor combinado com competências habitualmente é suficiente!”
Linda Carrol (terapeuta familiar e de casal)
Lorenne Barbosa
Psicóloga Clínica, Terapeuta Familiar e de Casal
Ler artigo: Como comunicar de forma mais consciente e afetiva nas nossas relações íntimas (1ª parte)
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